o móvel

Vila Madalena, segunda-feira, 1h30 da madrugada.

Péssima escolha de local, dia e horário. Rodamos metade da cidade em busca de algo para nos entreter, mas nada parecia oferecer algo bom, nem mesmo a boa e velha Rua Augusta. Decidimos parar o carro, parar numa rua qualquer e jogar conversa fora, assim, pelo menos, nós não gastaríamos dinheiro nem gasolina.

Até então a rua estava deserta, mas bastou alguns minutos para um caminhão de mudanças parar ao nosso lado, e já logo de cara eu tentei imaginar quem seria o filho da puta que resolve se mudar a aquela hora da noite.

O tempo passou e eu já não ligava mais para a presença dele, também já não ligava para nada, se me ligassem avisando que minha casa estava em chamas era capaz de eu não me importar. Foi quando eu resolvi fingir dar um soco em um dos camaradas, não faço idéia do por que, mas fingi, e acreditando ser verdade, um deles me alertou para que eu não partisse pra violência gratuita (o que eu costumo fazer quando acordo meio Michael Douglas), e eu respondi com toda a sinceridade do mundo: – Por quê?! A violência é algo natural, não devíamos bloquear tal ímpeto da nossa natureza. É como proibir sexo, alimentação ou até o ato de defecar. Sou a favor da legalização do homicídio.

Reflita sobre isso, e observe como o mundo poderia se tornar melhor dessa forma. É claro que não sairíamos atirando em todos em meio às ruas, semeando o ódio, caos e destruição. Seria algo totalmente ético e organizado, tais como os coffee shops que vendem maconha na Holanda. Só poderíamos matar em locais reservados para tal prática.

Acho que passamos uns dez minutos elaborando o funcionamento da lei.

Olhei para o lado e vi que um dos senhores do caminhão estava vindo em nossa direção, imaginei que ele fosse pedir um trago de um cigarro de palha que um dos nossos estava fumando, e que possivelmente o camarada teria confundido com maconha. Mas não, o pior aconteceu. Pediu-nos ajuda para levar os móveis para o apartamento.

Fomos lá, eu e o cara dos cigarros de palha, e ao ver o que teríamos de carregar já ficamos bastante chateados, afinal era um console antigo ou coisa do tipo, feito de madeira maciça. Com muito esforço erguemos aquela velharia, e levamos para o prédio, onde veio nossa segunda decepção…não havia elevador, seriam seis longos andares (não estou certo de quantos eram, não tive capacidade de contar). Senti que minha vida era um filme dirigido por algum maluco no nível dos irmãos Coen, e então aceitei a situação com bom humor.

O chapa nos ofereceu dez reais pelo favor prestado, que nós recusamos educadamente. Aliás, mesmo em outras circunstâncias e até com a nossa lei aprovada, creio que não mataria aquele cara. Basta olhar diretamente nos olhos da alguém para sentir sua índole, era uma boa pessoa.

Voltei para casa e fiquei pensando sobre o que ele faria se nós não estivéssemos lá, já que todos estariam dormindo e com as ruas desertas, ninguém iria o ajudar. Nossa presença, uma mudança em meio à madrugada, a rua sem saída. Vivemos uma sequência de improbabilidades, e tenho pena de quem vê nelas o aborrecimento ou a chateação. Eu apenas me divirto como se estivesse assistindo à minha própria vida em terceira pessoa.

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Uma resposta to “o móvel”

  1. Larissa Says:

    curti viu. no fim vc tem uma visão otimista da vida, dah ateh uma lição. Que bom saber que vc não é soh um resmungão xD

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