sozinhos na noite

Estávamos no ônibus, em alguma região ignorada do Brasil. O rádio não parava de tocar músicas regionais, tais como música gospel e forró local. Era meia noite e já estávamos há mais de 3 horas na estrada, passando por cidadezinhas parecidas com aquelas nas quais Zé do Caixão filmou seus primeiros filmes, onde todas as casas eram iguais e sempre havia uma igreja no centro.

Finalmente paramos em Maragogi, Alagoas. Éramos cinco perdidos na noite, chegamos lá por acaso e não tínhamos onde dormir, nem nada. Saímos em busca de um hotel que pudesse nos acomodar por um preço camarada, mas foi tudo em vão, estavam todos cobrando preços acima do nosso poder. Foi então que avistamos um posto policial, trocamos idéia com os soldados, e eles nos deixaram acampar na praia. Só não entendi o por que de um deles ficar insistindo que essa era a cidade que mais recebia turistas no país inteiro, e em mais um monte de asneiras típicas de quem tem síndrome de inferioridade, como os caipiras que se gabam por existir um shopping Center ou um Mc Donald’s em sua cidade.

Fomos discutir na rua o que faríamos quando um dos nossos pensou: – Mas que merda é essa? Vamos acampar sendo vigiados pelos coxas a noite toda? Nem fodendo. – A orla da praia é razoavelmente movimentada, se nos afastarmos muito do posto, é capaz de acordarmos sem nada, cara.

Decidimos bater de porta em porta à procura de uma boa alma para nos hospedar. Bem na primeira tentativa, de uma casa com uma grande varanda, um homem razoavelmente gordo apareceu desconfiado pela porta e nos questionou sobre o que queríamos, quem éramos e tudo mais.

Depois de alguns minutos de conversa, ele ficou convencido de que se tratava apenas de cinco jovens mochileiros de boa índole. Pela sua janela, avistamos algumas meninas e um cara, que provavelmente eram seus filhos, e também sua mulher. Nenhum deles saiu de casa, a não ser o chapa gordo.

Ele se chamava Ruy, e deixou que nós armássemos nossas barracas, então saímos de lá para dar uma volta na praia. Voltamos e dormimos.

Acordamos com uma chuva filha da puta, que molhou tudo o que deixamos para secar no dia anterior. Fiquei bastante irritado com isso, mas logo que Ruy chegou para nos dar bom dia voltei a ficar feliz, ele trazia cachaça, peixe frito e caldinho de feijão para todos nós.

Sentamos com ele na varanda e passamos horas conversando sobre música, nossas vidas, e a sua aventura pela América, na qual seu pai havia apenas lhe dado a passagem de ida, e foi trabalhando por lá, ao melhor estilo Kerouac, que ele se virou para conseguir voltar.

Mesmo após termos conquistado sua confiança, nenhum outro membro da família saiu para nos conhecer. Talvez ele estivesse com a impressão de que nós tentaríamos comer suas filhas; e realmente talvez nós tentássemos, mas esse não era o problema.

Parece-me que hoje é muito difícil se relacionar com alguém totalmente estranho. Só se criam amizades, relacionamentos, o que for, quando estamos em ambientes propícios, tais como balada, festa, turma da sala, churrasco, etc, mas muito raramente elas nascem espontaneamente, em qualquer lugar, por total acaso.

Enfim, pé na estrada novamente.

Uma resposta to “sozinhos na noite”

  1. Larissa Says:

    Nossa, que experiencia maravilhosa essa que vc teve! acho q tenho muito a aprender com vc =p

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